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Monday, July 25, 2016

Pour une littérature mineur: Mário Quintana as I see him



Almeida Júnior, Recado Difícil (1895);
Lasar Segall, Retrato de Lucy I (1935);
Candido Portinari, Retrato de João Candido com Cavalo (1941);
Samico, Retrato de Criança (1956);
Manabu Mabe, Abstracionismo (1967);
Mário Quintana, Antologia Poética (Rio de Janeiro: Alfaguara, 2015), com um ensaio de Eucanaã Ferraz;
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"Hat Jemand, Ende des neunzehnten Jahrhunderts, einen deutlichen Begriff davon, was Dichter starker Zeitalter Inspirationnannten? Im andren Falle will ich’s beschreiben..."
Nietzsche (Ecce Homo)

"Quem souber apreciar a cristalina, abstrata e rigorosa arquitetura dodecafônica, quase geométrica, de sua 'Suíte para piano'opus 25 ou de seu 'Quinteto de sopros', jamais poderá imaginar que a frase que se segue foi dita por Arnold Schönberg: 'Aquele que não possuir o romantismo em seu coração é um ser humano decrépito."
"Schönberg soube entender e mesmo exercitar muito bem o pathos wagneriano, mas, em vez de tentar espichá-lo ou 'modernizá-lo', como o fez Richard Strauss, ele provocou a sua imposão. Ao contrário de Debussy, que assumiu um radical distanciamento daquele estilo e técnicas composicionais, tecendo por fora e lentamente a sua contribuição renovadora, Schönberg provocou um envenenamento na engrenagem das formas, levando-as ao superlativo da expressividade, ao conflito, a uma neurótica impulsiva subjetividade onde o indivíduo situava-se como centro absoluto, intérprete e juiz do universo. A evolução desse comportamento espiritual, que veio desembocar em nosso século no expressionismo; que contou com figuras como Nolde, Kokoschka, Kandinsky, Chagal e Roualt na pintura; Wedekind, Werfel e Kafka na literatura; Wiene, Lang, Pabst, Dreyer e Murnau, no cinema, teve, em música, na obra de Arnold Schönberg, o seu carro-chefe."
Júlio Medaglia (Música Impopular)

"A CANÇÃO, a simples canção, é uma luz dentro da noite.
(Sabem todas as almas perdidas...)
[...]
E sob o aéreo, o implacável, o irresistível ritmo dos teus pés,
Deixa rugir o Caos atônito..."

"— em meio aos ruídos da rua
alheio aos risos da rua —
todas as jubas do Sol
por uma trança da Lua!"

"Os luares extáticos...
A noite parada..."

"Havia um corredor que fazia cotovelo:
Um mistério encanado com outro mistério, no escuro...
[...]
Nós éramos quatro, uma prima, dois negrinhos e eu.
[...]
Onde andará agora o pince-nez da tia Tula?"

"Até o grande relógio de pêndulo parou.
O tempo está morto de pé dentro dele como um chefe asteca.
[...]
Os felinos farejam-me.
Antes eu estivesse morte e não sentiria nada...
Mas
A primeira coisa que um morto faz depois de enterrado
É abrir novamente os olhos...
Como é que eu sei disso, meu Deus?!
Tão fácil acender a luz... Estendo a mão
Para a lâmpada de cabeceira e toco
Uma parede fria
Úmida
Musgosa..."

"O meu Anjo da Guarda é dentuço,
Tem uma asa mais baixa que a outra.
[...]
Poeta, está na hora em que os galos móveis dos para-raios
Bicam a rosa dos ventos..."

"Que o digam as nuvens, esses lerdos e desmesurados cágados das alturas...
E então para disfarçar a gente faz literatura... e diz aos amigos que foi apenas uma folha morta que se desprendeu... ou que um pneu estourou, longe... na estrela Aldebaran..."

"Ai esquinas esquecidas...
Ai lampiões de fins de linha...
Quem me abana das antigas
Janelas de guilhotina?"

"E as vovozinhas de saia-balão
Como paraquedistas às avessas que subissem do fundo do tempo.
O relógio marcava a hora
[...]
Em cima do telhado...
Como um catavento que perdeu as asas!"

"Os grilos são poetas mortos."

"— Seu Mário, o senhor ainda não leu o CRUEL AMOR?"

"Desaparecido na batalha do Itororó!"

"...cachorrinho Victor."

"Nossas Almas? Seil lá!"

"Deve haver tanta coisa desabada...
Deve haver tanta coisa desabada
Lá dentro... Mas não sei... É bom ficar
Aqui, bebendo um chope no meu bar...
E tu, deixa-me em paz, Alma Penada!
Não quero ouvir essa interior balada...
Saudade... amor... cantigas de ninar...
Sei que lá dentro apenas sopra um ar
De morte... Não, não sei! não sei mais nada!
Manchas de sangue inda por lá ficaram,
Em cada sala em que assassinaram...
Pra que lembrar essa medonha história?
Eis-me aqui, recomposto, sem um ai.
Sou o meu próprio Frankenstein — olhai!
O belo monstro ingênuo e sem memória..."

"A lua de Babilônia
Numa esquina do Labirinto
às vezes
avista-se a Lua."

"Não! como é possível uma lua subterrânea?
(Mas cada um diz baixinho:
Deus te abençoe, visão...)"

"Terceira canção de muito longe
Da última vez que atravessei aquele corredor escuro
Ele estava cheio de passarinhos mortos..."

"Traduzido de Raymond Queneau
Meus Deus, que vontade me deu de escrever um poeminho
Olha, agora mesmo vai passando um!
Pst pst pst
Vem para cá para que te enfie
Na fieira dos meus outros poemas
Vem cá para que eu te entube
Nos comprimidos de minhas obras completas
Vem cá para que eu te empoete
Para que eu te enrime
Para que eu te enritme
Para que eu te enlire
Para que eu te empégase
Para que eu te enverse
Para que eu te emprose
Vem cá...
Vaca!
Escafedeu-se."

See also:

Saturday, July 23, 2016

Pau Brasil (Oswald de Andrade)

Sell Art Online





Oswald de Andrade, A/Z mixed media rough sketch, available with other A/Z drawings and photographs at Fine Art America;
Antonio Parreiras, Residência da Família Parreira Horta, circa 1898;
Cecília Meireles, Menino com cesto à cabeça;
Candido Portinari, O Flautista (1942);
Pierre Verger;
Jesuíno do Monte Carmelo, Detalhe do forro da Igreja da Ordem Terceira do Carmo Itu;
São Francisco das Chagas, Capela da Nossa Senhora dos Aflitos, São Paulo, (Percival Tirapeli, Arte Sacra Colonial);
Aleijadinho, Nosso Senhor da Paciência (Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, Antônio Francisco de Lisboa, o "Aleijadinho": o que vemos e o que sabemos);
Aside by Ezra Pound (Salutation, Commission); 
Mário de Andrade (O Capoeira, Relicário, Bonde, Contrabando, Passionária, Procissão de Enterro, Simbologia, Sábado de Aleluia, Ressurreição); 
Mário Quintana (A Cozinheira); 
Wesley Duke LeeO Tríptico (update figuras do Guardião & Guardiã, adptado às circustâncias) ["Essa parte foi considerada chocante e, para remediar a situação, a Eminência Parda colou a parte móvel com Araldite, numa atitude espantosa de autoritarismo e desrespeito ao artista, que nesse momento se encontrava no exterior... Wesley retorna e transforma o retrato num tríptico, pintando uma tarja negra sobre os olhos da mulher retratada e colocando a cada lado do retrato os guardiões... acopla à tela um retrato do Chefe, com sua moldura dourada, típica do ecletismo... a Eminência Parda é representada de óculos escuros..." Cacilda Teixeira da Costa, Wesley Duke Lee, Edusp 2005, p. 117-18];
Ouvindo Oswald (Funarte, 1999/Youtube); 
George Antheil's Violin Sonata n. 2 (Vahid Khadem-Missagh and Gottlieb Wallisch, 2015,Youtube); 
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"A operação metafísica que se liga ao rito antropofágico é a da transformação do tabu em totem."
O. A. (A Crise da Filosofia Messiânica)
"... gar nicht vom Opfer (der Mahlzeit) zu reden..."
Nietzsche (Der Antichrist)

"Minha ligação com esse pessoal todo, Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, é nossa disposição de voltar a Oswald de Andrade. Oswald é o ponto de ligação entre o meu trabalho e Caetano, Gil, os poetas concretistas de São Paulo, que têm essa nova compreensão estética, e Fernando Coni Campos, Zé do Caixão."
Rogério Sganzerla (entrevista a Marcos Faerman, 1969)
"O Nelson Pereira tem filmes maravilhosos, Boca de ouro, Mandacaru vermelho, que é dez vezes melhor que Fome de Amor, embora ele não saiba, Barravento [de Glauber Rocha] é sensacional, gosto muito de Deus e o diabo, gosto do primeiro filme do Miguel Borges que chama-se Canalha em crise. O cinema brasileiro quando era feito no mato ou na favela. São caminhos que Oswald de Andrade apontava: no sertão ou na favela. Eram filmes extremamente interessantes pela ingenuidade. Do momento em que o cara deixou de ser ingênuo pra ser um pouquinho menos ingênuo se fodeu todo.  Deu aquela: sou autor, vou filmar o meu universo, o meu estilo, os meus mitos, as minhas sensibilidades. Aí o cara não tinha nem muita sensibilidade, nem muita coragem e nem muito talento..."
Rogério Sganzerla (Pasquim, 1970)

"Em outubro de 1929 vieram o crash da Bolsa e a crise do café. Oswald e Pagu se engajavam no Partido Comunista. E o criador de Serafim Ponte Grande, julgando-se curado do 'sarampão antropofágico', virou 'casaca de ferro da Revolução Proletária'. As ideias e concepções da antropofagia foram postas de lado por muito tempo. Só em 1945, depois de sua ruptura com os comunistas, é que Oswald, intelectualmente recuperado, se dispôs a aprofundar os temas antropofágicos."
"Tivesse escrito em inglês ou francês, quem sabe até em espanhol, e sua antropofagia já teria sido entronizada na constelação de ideias de pensadores tão originais e inortodoxos como McLuhan, Buckminster Fuller, John Cage... A antropofagia, que salvou o sentido do modernismo, é também a única filosofia original brasileira e, sob alguns aspectos, o mais radical dos movimentos literários que produzimos."
Augusto de Campos (Revistas Re-Vistas: Os Antropófagos)
"Os livros — o que restava da edição de 1945 — estavam empilhados, se bem me lembro, no alto de um armário numa dependência interna do apartamento. Oswald os distribuía, assim, generosamente, aos poucos amigos e simpatizantes. Tal era a solidão do poeta, já quase sexagenário, que, 'de facho em riste, bancando o Trótski, em solilóquio com a revolução permanente' — como o descrevera Patrícia Galvão um ano antes — continuava a vociferar contra tudo e contra todos em defesa do modernismo e da antropofagia, à espera do resgate das futuras gerações."
Augusto de Campos (Oswald, Livro Livre)

"A violenta compressão a que Oswald submete o poema, atingido sínteses diretas, propõe um problema de funcionalidade orgânica que causa espécie em confronto com o vício retórico nacional, a que não se furtaram, em derramamentos piegas, os próprios modernistas e que anula boa parte da obra de  um Mário de Andrade, por exemplo."
"Terra de muitos estudantes e estudiosos de filosofia mas de poucos filósofos, o Brasil tem em Oswald um dos raros intelectuais a que esse termo, em sua acepção integral, pode ser aplicado sem constrangimento. Embora seus escritos continuem a ser rejeitados pelo mundo acadêmico, evidenciam-no como um solitário pensador original... Oswald não enrolava o pensamento em cipoais argumentativos. Era sintético e direto. Tinha o 'defeito' literário de escrever bem."
Augusto de Campos (Pós-Walds)

"Hat Jemand, Ende des neunzehnten Jahrhunderts, einen deutlichen Begriff davon, was Dichter starker Zeitalter Inspiration nannten? Im andren Falle will ich’s beschreiben..." 
Nietzsche (Ecce Homo)
"... certain emotions as vital to me... faced with the infinite and ineffable imbecility of the British Empire, as they were to Propertius some centuries earlier, when faced with the infinite and ineffable imbecility of the Roman Empire..." 
(Pound about his "Homage to Sextus Propertius"; New Selected Poems and Translations, edited by Richard Sieburth, New Directions, 2010, p. 298).
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This was (still is) written against "the new rich artists, literary officials, pompous academicians, provincial geniuses, and the poets of parliamentary report" &/or members of "the Freemasonry of Cronyism" [novos-ricos da arte, empregados públicos da literatura, acadêmicos de fardão, gênios das províncias, poetas do Diário Oficial... Maçonaria da Camaradagem] (Paulo Prado, "Poesia Pau Brasil").
Brazil: society of "derelict savants" [náufragos eruditos] and encyclopedic congestion [rebentaram de enciclopedismo] (Oswald de Andrade, "Falação").
An Aside by Mário de Andrade (sem tradução, que preguiça!):
"Quanto a algum escândalo possível que o trabalho possa causar, sem sacudir a poeira das sandálias, que não uso sandálias dessas, sempre tive uma paciência (muito) piedosa com a imbecilidade pra que o tempo do meu corpo não cadenciasse meus dias de luta com noites cheias de calma..." (1st Preface to Macunaíma).

"o violeiro
Vi a saída da lua
Tive um gosto singulá
Em frente da casa tua
São vortas que o mundo dá"

"ditirambo
Meu amor me ensinou a ser simples
Como um largo de igreja
Onde não há nem um sino
Nem um lápis
Nem uma sensualidade"

"guararapes
[...]
Mas que sujeito loiro!"

"II
Bestão querido
Estou sofrendo
Sabia que ia sofrer
Que tristeza esse apartamento de hotel
[...]
Que distância!
Não choro
Porque meus olhos ficam feios"

"pronominais
[...]
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro!"

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And also:

Monday, July 11, 2016

Noite Morta (Manuel Bandeira) (1921) & Outros











Insomnia, photograph by A/Z available with other A/Z photographs and drawings at Fine Art America; 
Alfredo Andersen, Brincando no Jardim;
Alfredo Andersen, Retrato de Dirceu Andersen (1930);
Lasar Segall, Floresta de Troncos Espaçados (1955);
Joaquín Torres García, Forma anímica en una estructura (1929);
Candido Portinari, Espantalho (1940);
Tarsila do Amaral, O Sapo (1928);
Lourenço Mutarelli (Quando meu pai se encontrou com o ET fazia um dia quente, 2011);
Almeida Júnior, Derrubador Brasileiro (1879);
Lasar Segall, Bananal (1927);
Samico, A Traição (1964);
Samico, Ascensão (2004);
A rabbit in the moon + Maya moon goddess holding a rabbit + Mixtec moon sign (Florentine Codex libro 7 fol. 3, Mary Miller & Karl Taube, The Gods and Symbols of Ancient Mexico and the Maya);
Edgard Varèse's Nocturnal (Youtube); 
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"Voici venir les temps où vibrant sur sa tige
Chaque fleur s'évapore ainsi qu'un encensoir;
Les sons et les parfums tournent dans l'air du soir;
Valse mélancolique et langoureux vertige!"
Charles Baudelaire
"Je ne sais quoi de doux, de secret et de douloureux prolonge dans ces ténèbres animales l'intimité de la lueur qui veille en nous."
Georges Bataille (Théorie de la religion)
"I have put the language to sleep."
Joyce to Beckett (Ellmann)
"Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia."
Clarice Lispector (Amor)

"Hat Jemand, Ende des neunzehnten Jahrhunderts, einen deutlichen Begriff davon, was Dichter starker Zeitalter Inspirationnannten? Im andren Falle will ich’s beschreiben..."
Nietzsche (Ecce Homo)
"Et l'autre: celle qui croyait aux forces mouvantes, et pour les exprimer, à la rapidité vertigineuse d'une exécution jamais en retard sur l'inspiration."
André Masson (Propos sur le Surréalisme)
"Ainsi, lorsque je pénètre dans mon atelier le matin, je suis souvent surpris de ce qui est advenu durant la nuit, de ce qui a pu se métamorphoser dans le tableau. Car le tableau évolue sans cesse, quotidiennement pourrais-je dire."
Anselm Kiefer

"Sa lointaine nuit brésilienne l'a rattrapé."
S. Chauveau (Manet Le secret)
"Car elle occupe la nuit entière, du couchant à l'aurore, mais elle prend toute la nuit et la ramasse comme on prend tout le jus d'un fruit jusqu'à la source de la vie."
A. Artaud (Le Rite du Peyotl chez les Tarahumaras)
"Non, le soleil ne reviendra plus... on ne sait pas assez, on ne sait pas du tout ici en Europe combien la croix est un signe noir..."
A. Artaud (Tutuguri)
"All is languid, at rest in the sky. There is not yet anything standing erect. Only the expanse of the water, only the tranquil sea lies alone. There is not yet anything that might exist. All lies placid and silent in the darkness, in the night."
Popol Vuh (Allen J. Christenson's translation)

"E tinha por penitência,
Que a sua própria figura,
De dia, era igual às outras...
E diferente, em noite escura!
... Pelo lunar do seu rosto,
Que se tornava visível
Apenas o sol era posto."
Simões Lopes Neto (O Lunar de Sepé)
"Noite morna de ar parado. O galo do cata-vento, no alto da torre da Matriz, de tão negro e nítido parece desenhado no céu, a nanquim... A figueira grande da praça parece um paquiderme adormecido."
Érico Veríssimo
"Falcões da escuridão ouvi-nos. Noite! Noite!"
Finnegans Wake (trad. Augusto e Haroldo de Campos)

"... le souvenir d'Adrienne, fleur de la nuit éclose à la pâle clarté de la lune..."
"Plus loin que Louvre est un chemin bordé de pommiers dont j'ai vu bien des fois les fleurs éclater dans la nuit comme des étoiles de la terre..."
"Je suis entré au bal de Loisy à cette heure mélancolique et douce encore où les lumières pâlissent et tremblent aux approches du jour."
Gerard de Nerval
"... la vrai nuit, dangereuse elle aussi, mais favorable à qui la conaît, à qui sait s'y ouvrir comme la fleur au soleil, à qui lui-même est nuit..."
Molloy
"And when the evening mist clothes the riverside with poetry, as with a veil, and the poor buildings lose themselves in the dim sky, and the tall chimneys become campanili, and the warehouses are palaces in the night, and the whole city hangs in the heavens, and fairy-land is before us... Nature sings her exquisite song to the artist alone, her son and her master."
Whistler

"... la lumière luit dans les ténèbres, mais que les ténèbres ne l'ont point reçue. La lumière a donc voulu être reçue des ténèbres; il y a donc un moment où la lumière est condamnation, et il y a un moment où la lumière cherche les ténèbres pour en être reçue. Tout ce qui monte dans le plein jour de la conscience n'y monte jamais que la tête en bas; les images de la nuit s'inversent sur le miroir de la pensée consciente; qu'il y ait ici une nécessité profondément inscrite dans la loi de l'être qui s'explicite en tant que la roue universelle, à l'image de l'éternité — qu'enfin l'inversion de la nuit en jour et du sommeil à l'état de veille de la conscience résulte de cette loi, nous le verrons plus tard."
"... c'est tant que fragment, qu'énigme, que hasard que je reste, par rapport au plus essentiel de moi qui, peut-être, vient de se prononcer par ce rire et ces larmes sans motif raisonnable; mais ce plus essentiel qui se serait manifesté de la sorte répondait à une image cachée dans le plein jour de la conscience, une image inversée à moi-même qui me suis attardé dans la perspective du but, à vouloir prêter le plus de conscience à ce rire ou à ces larmes; et il faut donc qu'il y ait une nécessité qui veuille me faire rire ou pleurer comme si je pleurais ou riais librement; or cette nécessité n'est-elle pas le même qui inverse la nuit en plein jour, le sommeil à l'état de veille dans lequel la conscience pose son but? Ne serait-ce pas la même nécessité qui réinversera les images du plein jour en celles de la nuit?... car le même mouvement qui rejette la conscience hors de la nuit dans l'aurore où elle pose son but, m'entraîne loin de ce but pour me ramener à ce que j'ai de plus essentiel dans le minuit profond." 
Pierre Klossowski (Un si funeste désir)

"Quem souber apreciar a cristalina, abstrata e rigorosa arquitetura dodecafônica, quase geométrica, de sua 'Suíte para piano'opus 25 ou de seu 'Quinteto de sopros', jamais poderá imaginar que a frase que se segue foi dita por Arnold Schönberg: 'Aquele que não possuir o romantismo em seu coração é um ser humano decrépito."
"Schönberg soube entender e mesmo exercitar muito bem o pathos wagneriano, mas, em vez de tentar espichá-lo ou 'modernizá-lo', como o fez Richard Strauss, ele provocou a sua imposão. Ao contrário de Debussy, que assumiu um radical distanciamento daquele estilo e técnicas composicionais, tecendo por fora e lentamente a sua contribuição renovadora, Schönberg provocou um envenenamento na engrenagem das formas, levando-as ao superlativo da expressividade, ao conflito, a uma neurótica impulsiva subjetividade onde o indivíduo situava-se como centro absoluto, intérprete e juiz do universo. A evolução desse comportamento espiritual, que veio desembocar em nosso século no expressionismo; que contou com figuras como Nolde, Kokoschka, Kandinsky, Chagal e Roualt na pintura; Wedekind, Werfel e Kafka na literatura; Wiene, Lang, Pabst, Dreyer e Murnau, no cinema, teve, em música, na obra de Arnold Schönberg, o seu carro-chefe."
Júlio Medaglia (Música Impopular)
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NOITE MORTA.
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.

Ninguém passa na estrada,
Nem um bêbado.

No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.

O córrego chora.
A voz da noite...
(Não desta noite, mas de outra maior.)
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Intermezzo Mario Quintana:
Noturno
Tudo ficou mais leve no escuro da casa.
As escadas pararam de repente no ar...
Mas os anjos sonâmbulos continuam subindo os degraus truncados.
Atravessando os espelhos como se entrassem numa outra sala.
O sonho vai devorando os sapatos
Os pés da cama
O tempo.
Vovô resmunga qualquer coisa no fim do século passado.
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Outro M.B.:
O Anjo da Guarda
Quando minha irmã morreu,
(Devia ter sido assim)
Um anjo moreno, violento e bom,
— brasileiro
Veio ficar ao pé de mim.
O meu anjo da guarda sorriu
E voltou para junto do Senhor.
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Um Mário de Andrade:
Poemas da Amiga, I
A tarde se deitava nos meus olhos
E a fuga da hora me entregava abril,
Um sabor familiar de até-logo criava
Um ar, e, não sei porque, te percebi.

Voltei-me em flor. Mas era apenas tua lembrança.
Estavas longe, doce amiga; e só vi no perfil da cidade
O arcanjo forte do arranha-céu cor-de-rosa
Mexendo asas azuis dentro da tarde.
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The Mythology of Night:


"In traditional Mesoamerican thought, the night was widely regarded with a certain amount of dread and fear. At night, formchangers and demons from the perimeters of the social world could wreak havoc upon humans. During the time of darkness, spooks and demons of the Underworld rose to the surface of the earth and the heavens. It was commonly believed that the soul traveled about while one slept, exposing the individual to great danger. Dreams were often considered to be memories of the soul's nocturnal journeys and exploits. Thus in most Maya languages, the term uay often bears connotations of sleep, dream, from-changer, or spirit companion. The forces of the night often diametrically oppose the ordered world of the sun and daylight" Mary Miller & Karl Taube's An Illustrated Dictionary of The Gods and Symbols of Ancient Mexico and the Maya (Thames & Hudson, 1997/2015);
"That Finnegans Wake should be a night book as Ulysses was a day book was also already decided. The night required and justified a special language. 'Je suis au bout de l'anglais,' Joyce said to August Suter, and he remarked to another friend, 'I have put the language to sleep.' As he explained to Max Eastman in a later effort, valiant but unsuccessful, to win a convert to his method, 'In writing of the night, I really could not, I felt I could not, use words in their ordinary connections. Used that way they do not express how things are in the night... I found that it could not be done with words in their ordinary relations and connections... He said to Edmond Jaloux that his novel would be written 'to suit the esthetic of the dream, where forms prolong and multiply themselves, where the visions pass from the trivial to the apocalyptic, where the brain uses the roots of vocables to make others from them which will be capable of naming its phantasms, its allegories, its allusions... Mrs. Nutting preserved one of Joyce's own dreams and the interpretation he put upon it, [which] is a heady mixture of Freud and the Arabian Nights... He restudied Giambattista Vico, he was particularly drawn to the 'roundheaded Neapolitan's' use of etymology and mythology to uncover the significance of events... Joyce planned a book of four long essays (for the Wake's four old men) on the subjects of the treatment of night, mechanics and chemistry, humor... to be written by Harry Crosby [who] had received from an uncle a huge illustrated copy of the Egyptian Book of the Dead...  he defended its technique or form in terms of music, insisting on the importance of sound and rhythm, and the indivisibility of the meaning from form... he defended his language as a medium built up by splitting and agglutination... which traced the distortion of dreams and suggested that history was also paranomastic, a jollying duplication of events with slight variations..." Richard Ellmann's James Joyce (The First Revision of the 1959 Classic, Oxford Univ. Press, 1982). 

Tuesday, July 05, 2016

Favorite Drummond (with translation) & Detail from Mutarelli's Quando meu Pai...

 




Mais Drummond;
Oswald de Andrade/ Serafim;
Manuel Bandeira/ Libertinagem;
Mario Quintana (O Ovo);
Tarsila do Amaral/ Urutu;
Francisco Brennand, O Grito (1981);
Lourenço Mutarelli, Quando meu pai se 
encontrou com o ET fazia um dia quente (
São Paulo: Companhia das Letras, 2011).

"Hat Jemand, Ende des neunzehnten Jahrhunderts, einen deutlichen Begriff davon, was Dichter starker Zeitalter Inspirationnannten? Im andren Falle will ich’s beschreiben..."
Nietzsche (Ecce Homo)

SCIENCE FICTION***
O marciano encontrou-me na rua
e teve medo de minha impossibilidade humana.
Como pode existir, pensou consigo, um ser
que no existir põe tamanha anulação de existência?

Afastou-se o marciano, e persegui-o.
Precisava dele como de um testemunho.
Mas, recusando o colóquio, desintegrou-se
no ar constelado de problemas.

E fiquei só em mim, de mim ausente.
***Carlos Drummond de Andrade,
Lição de Coisas (São Paulo: Companhia
das Letras, 2012, p. 70).


SCIENCE FICTION****
While stumbling on me in the street,
frightened by my human impossibility,
the Martian thought to himself:
"How can exist such a creature
whose existence pitifully overturns its being?"

He ran away, but I pursued him:
"Will you be my witness?"
But he then cagily disintegrated
in the airy constellation of problems.

And I kept to my own absence.
****Free translation (A/Z).

See also:

Thursday, December 10, 2015

Poème du retour: Paulo Leminski et l'éternel moustache de Nietzsche (& outros)




Samico, História do Galo de Ouro (1999);
Lasar Segall, Mãe Morta (1940);
Schoenberg's Pierrot Lunaire (directed by Oliver Herrmann, singed by Christine Schäfer & conducted by Pierre Boulez); 

"Nishida's basho vis-à-vis nothing is the basho that can be reached by denying the fact that the self is such an ego-consciousness or, to be more precise, by letting it disappear."
Yasuo Yuasa
"...basal consciousness, becoming a thing and exhausting it... does not mean to lose the body, nor that it becomes universal. On the contrary, the self is deepened, it is thoroughly at the base of one's body."
Kitaro Nishida/Yasuo Yuasa
"There is an end to life, but No is endless."
Zeami
"Hat Jemand, Ende des neunzehnten Jahrhunderts, einen deutlichen Begriff davon, was Dichter starker Zeitalter Inspirationnannten? Im andren Falle will ich’s beschreiben..."
Nietzsche (Ecce Homo)

"... l'identité... tourne autour du Différent..."
Deleuze (Différence et répétition)
"... le Christ véritable était une espèce de Bouddha..."
Deleuze (Nietzsche et la philosophie)
"... la mort dérobant la conscience, non seulement j'ai conscience de mourir: cette conscience, en même temps, la mort la dérobe en moi..."
"Les contenus se perdant les uns dans les autres, des diverses formes de dépense définissaient d'eux-mêmes une loi de communication réglant les jeux de l'isolement et de la perte des êtres."
Georges Bataille

"Ces serments, ces parfums, ces baisers infinis,
Renaîtront-ils d'un gouffre interdit à nos sondes,
Comme montent au ciel les soleils rajeunis
Après s'être lavés au fond des mers profondes?
— Ô serments! ô parfums! ô baisers infinies!"
Charles Baudelaire (Le Balcon)
*************************************************************

Paulo Leminski, Distraídos Venceremos (1987): 
"desaparecença Nada com nada se assemelha.
Qual seria a diferença
entre o fogo do meu sangue
e esta rosa vermelha?
Cada coisa com seu peso,
cada quilômetro, seu quilo.
De que é que adianta dizê-lo,
isto, sim, é como aquilo?
Tudo o mais que acontece
nunca antes sucedeu.
E mesmo que sucedesse,
acontece que esqueceu.
Coisas não são parecidas,
nenhum paralelo possível.
Estamos todos sozinhos.
Eu estou, tu estás, eu estive."

"incenso fosse música
isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além" 
*************************************************************

Um poema de Mário de Andrade (Improviso do Rapaz Morto, 1925):
"Morto, suavemente ele repousa sobre as flores do caixão.
Tem momentos assim em que a gente vivendo
Esta vida de interesses e de lutas tão bravas,
Se cansa de colher desejos e preocupações.
Então para um instante, larga o murmúrio do corpo,
A cabeça perdida cessa de imaginar,
E o esquecimento suavemente vem.
Quem que então goze as rosas que o circundam?
A vista bonita que o automóvel corta?
O pensamento que o heroíza?..
O corpo é que nem véu largado sobre um móvel,
Um gesto que parou no meio do caminho,
Gesto que a gente esqueceu.
Morto, suavemente ele esquece as flores do caixão.
Não parece que dorme, nem digo que sonhe feliz, está morto.
Num momento da vida o espírito se esqueceu e parou.
De repente ele assustou com a bulha do choro em redor,
Sentiu talvez um desaponto muito grande
De ter largado a vida sendo forte e sendo moço,
Teve despeito e não se moveu mais.
E agora ele não se moverá mais.
Vai-te embora! vai-te embora, rapaz morto!
Ôh, vai-te embora que não te conheço mais!
Não volta de-noite circular no meu destino
A luz da tua presença e o teu desejo de pensar!
Não volta oferecer-me a tua esperança corajosa,
Nem me pedir para os teus sonhos a conformação da terra!
O universo muge de dor aos clarões dos incêndios,
As inquietudes cruzam-se no ar alarmadas,
E é enorme, insuportável minha paz!
Minhas lágrimas caem sobre ti e és como um sol quebrado!
Que liberdade em teu esquecimento!
Que independência firme na tua morte!
Ôh, vai-te embora que não te conheço mais!"

From The Book of Thoth (Aleister Crowley):
- 8/Adjustement [Libra, Venus/Saturno, adjustment ("the daughter, redeemed by her marriage with the Son, is thereby set up on the throne of the mother"), "the feminine complement of the Fool," "the secret course of judgment whereby all current experience is absorbed, transmuted, and ultimately passed on, by virtue of the operation of the Sword, to further manifestation," "at the corner of the card, are indicated balanced spheres of light and darkness, and constantly equilibrated rays from these spheres form a curtain, the interplay of all those forces which she sums up and adjudicates," "equilibrium stands apart from any individual prejudices... Nature is scrupulously just, it is impossible to drop a pin without exciting a corresponding reaction in every star," "she is the ultimate illusion which is manifestation; she is the dance, many-coloured, many-wiled, of Life itself, constantly whirling, the phantom show" (***wasn't Nietzsche a Libran? Yes! He was born 15 October; in what matters A/Z himself, the regents of solar sign and ascendent are in Libra, and almost everything is in the VII house, see here), karma (Eastern philosophy), "Saturn represents above all the element of time... all action and reaction take place in time" (phenomena are compensated by time)];

See also:
- Umberto Eco about Nietzsche;