Monday, January 11, 2021

Cartografia de Água Viva*** &/ou lista de velhas figuras alquímicas (under construction)



Seminário Aberto Filosofia e Literatura/Clarice Lispector, 100 anos de existência, 10/12/2020 (Universidade do Porto); 
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Fundo: 
- "instantes-já" (da "quarta dimensão"), "átomos do tempo", "substrato último", "vibração última", "energia", "estilhaços de X" (1, 11, 80); 
- "o it", "transcendência dentro de mim" ("pensamento que uma ostra tem"), "o it vivo" ("é o Deus"), "elemento puro", "material do instante do tempo", "Eu é", "ribombo oco do tempo", "aquilo", "X" ("tenho medo do seu diapasão") (30, 34, 37);
- "aura do corpo em plenilúnio" (74); 
- espelho, água (77-80); 

Meio: 
- "entrelinha", "signos", "gesto", "pintar", "mergulho na matéria da palavra", "onomatopéia", "convulsão da linguagem", "atrás do pensamento", "parar de raciocinar", "verdade latente", "incompreensão", "vida liberta do entendimento", "o fundo da existência", "ao escrever lido com o impossível", "se não compreendo o que escrevo a culpa não é minha, tenho que falar porque salva" (21, 24, 27, 33, 40, 53, 66, 72, 85);
- "sânscrito", "língua anterior ao sânscrito" (43, 45); 
- "parambólica", "não existe a palavra espelho" ("um único espelho é uma infinidade de espelhos"), "cada um de nós é um símbolo que lida com símbolos" (74, 77, 80);
 
Noite: 
- "caverna de terror e das maravilhas" ("lugar de almas aflitas"), "gruta" ("com seu miasma"), "mal", "missa negra", "vida latejante infernal", "perigo de morte de alma", "noite" ("entorpecimento, azinhavre e visgo", "mais longa que a vida"), "marca de Satã" ("a mão verde e os seios de ouro"), "escuridão feérica" ("caldo de cultura"), "cercam-me criaturas elementares, anões, gnomos, duendes e gênios, sacrifico animais para colher-lhes o sangue de que preciso para minhas cerimônias de sortilégio", "a planta maldita que está próxima de se entregar ao Deus, quanto mais maldita mais até o Deus", "as inscrições cuneiformes quase ininteligíveis falam de como conceber e dão fórmulas sobre como se alimentar da força das trevas, falam das fêmeas nuas rastejantes", "intensidade do crepúsculo" (16, 20, 25, 26, 28, 38, 41, 42, 76);
- "existo de um modo febril", "trabalho enquanto durmo", "convalescença macia" ("de algo que poderia ter sido absolutamente terrível"), "mina faiscante e sonambúlica", "bola de cristal", "campo de meditação", "sono criador" ("que se espreguiça através das veias") (22, 66, 69, 80); 
- "rainha dos medas e dos persas", "Diana caçadora" (24, 26);
- "dama da noite" ("perfume de lua cheia", "fantasmagórica", "da esquina deserta e em trevas e dos jardins de casas de luzes apagadas", "assobio no escuro", "o que ninguém aguenta") (44, 46, 59);

Vida Sobrenatural:
- "mítico, fantástico", "sobrenatural" ("sou assombrada pelos meus fantasmas"), "os bichos me fantasticam" ("são o tempo que não se conta"), "os seres vivos (que não o homem) são um escândalo de maravilhamento", "mistério doido" (perfume da rosa), "taja" (planta que fala da Amazônia, "uma vez entrou tarde da noite em casa e quando estava passando pelo corredor ouviu a palavra 'João'"), "estou transfigurando a realidade", "eu não disse que um dia ia me acontecer alguma coisa?", "e a parte divina das borboletas é mesmo de dar terror", "as flores são assombradamente delicadas como um suspiro de alguém no escuro" (29, 40, 48, 56, 60, 65, 67, 92); 
- "tigre" ("lambo o meu focinho depois de ter devorado o veado"), "negra pantera lustrosa" ("andava macio, lento e perigoso"), "gata parindo" ("comi minha própria placenta"), "planta carnívora" ("que lamenta tempos imemoriais"), "pantera negra enjaulada" ("uma vez olhei bem nos olhos, ela me olhou bem nos olhos, transmutamo-nos"), "tigre" ("lambo uma das patas"), "tigre" ("com flecha imortal cravada na carne") (25, 28, 34, 41, 80);
- "morcegos" ("ratos com asas em forma de cruz"), "insetos, sapos, piolhos, moscas, pulgas e percevejos", "corrupta germinação malsã de larvas", "seres putrefatos em decomposição", "ouço o canto doido de um passarinho e esmago borboletas entre os dedos, sou uma fruta roída por um verme", "chusma dissonante de insetos", "salamandra", "anjo aleijado" (15, 41, 67, 70, 73); 
- "gosto é das paisagens de terra esturricada e seca, com árvores contorcidas e montanhas feitas de rocha e com uma luz alvar e suspensa", "oh, vento siroco" (39, 52); 
- formiga, abelha e rosas ("são elas") (57, 61, 73);

Morte Impossível: 
- "a morte apaga os traços de espuma do mar na praia", "sou minha própria morte" ("ninguém vai mais longe"), "quero morrer com vida", "há uma prece profunda em mim que vai nascer não sei quando", "éclater", "alguma coisa minha que no entanto fica inteiramente fora de mim", "eu mesmo estátua a ser vista de noite", " quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama", "a morte é o impossível e o intangível" (29, 39, 46, 67, 72, 74);

Ordenamento: 
- "a ausência de Deus é um ato de religião" (estou precisando de Deus "mais do que a força humana"), "Ordem", "Deus é no passado que se soube, é algo que já se sabe", "duas assimetrias encontrar-se-ão na simetria", "o material criado é religioso", "síntese", "simetria utópica", "um pedaço mínimo de espelho é sempre o espelho todo", "mecanicismo" ("objeto que grita") (55, 64-65, 73, 76-77, 86); 
- "o oblíquo da vida", "nós somos de soslaio", "eu falo bem baixo para que os ouvidos sejam obrigados a ficar atentos" (68, 70);
***Clarice Lispector, Água Viva (Rio de Janeiro: Rocco, 1973);

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