Monday, September 13, 2021

Iberê, self-taught painter: "Aprendi num só dia com Guignard mais do que em 4 anos na Escola de Belas-Artes"














original images from Vera Beatriz Siqueira, Iberê Camargo: Origem e Destino (Cosac Naify  2009), montage by AZ (for more see here); 

"Chegou  mesmo a falar, ainda no início de sua carreira, que se pudesse alugaria um ateliê novo só para deixar para trás os quadros já realizados, que virava para a parede como se estivessem de castigo. 'Eles me penetram com tanta itnensidade que quase sinto ter que repartir com eles o ar que meio respiro nesse quadrado povoado de imagens."
"Diante da crise do suporte, afirma-se como 'um dinossauro, o último dos pintores.'"
"'Uma luminescência fosfórica — lembrança de luz — banha o espaço, sem deixar sombra alguma. Amanhecer ou anoitecer, início ou fim, vida ou morte?'" [Paulo Venâncio Filho, sobre Solidão].
"... Percebeu na paisagem austera do Sul uma série de sugestões metafísicas, além da melancolia e da solidão essenciais à sua poética."
"... O agitado mar de Torres é símbolo do drama humano, da resistência à ordenação... Nas palavras de Ronaldo Brito... 'A planta acaba assim dividida entre uma área de ordenação simétrica e um convulso espaço barroco.'"
"A impetuosidade e a rapidez das pinceladas... falam da energia criativa do artista tanto quanto da fúria da natureza... Para Wilson Coutinho, 'a cor é pensada como matéria pura' e o pintor 'já está a caminho d e questionar a superfície da tela.'"
"... Solidão que se tornava ainda maior na cidade de Porto Alegre, que o próprio Iberê percebeu como provinciana e conservadora."
"'Aprendi num só dia com Guignard mais do que em 4 anos na Escola de Belas-Artes.'"
"Para encontrar o seu próprio mundo, precisava de outras referências. A mais consistente delas, ainda nesse  período, é  certamente  a obra do gravador expresssionista Oswaldo Goeldi."
"Desde  os anos 1920, a obra de Girogio de Chirico dialogava diretamente com a tradição clássica italiana. Essa combinação de aprumo técnico e contato com a tradição parece interessar especificamente Iberê, ainda que possamos também perceber afinidades com as qualidades emocionais e misteriosas de sua Pintura Metafísica."
"A matéria grossa que impregna o pequeno quadro deseja soltar da tela, solicita que a  natureza desapareça aos golpes escultóricos de tinta" [Wilson Coutinho, sobre Dentro do Mato].
"A pintura de naturezas-mortas e, mais especificamente, de carretéis é identificada, para a grande maioria dos estudiosos da obra de Iberê Camargo, como o momento em que ele passa a contribuir de forma pessoal e original como artista moderno. Há nessa afirmação uma verdade incontestável. A adoção dos carretéis, inicialmente como objeto de suas naturezas-mortas e, posteriormente, como elemento autônomo, foi decisiva na definição dos contornos daquilo que hoje entendemos como sua obra."
"... A luz é fria, azulada. Essa concisão cromática e temática dá um aspecto original a suas obras. Paulo Venâncio Filho chama a nova estrutura de 'medieval', enquanto Ronaldo Brito lembra o aspecto 'um tanto gótico' de seus carretéis."
"Iberê encontra no carretel um motivo que, por suas próprias caraterísticas físicas e pelo vínculo imediato com a memória da infância, oferece oportunidade de experimentar uma nova conjugação de forma e signo. E a maneira essa forma-signo se identifica com a própria materialidade da pintura, surgindo das camadas de tinta que o artista aplica e retira, aponta para a questão da espiritualização da matéria — outro tema caro da arte medieval — como fato central de sua poética."
"Muito já se falou sobre o fato de o carretel ter sido seu brinquedo de infância. O próprio Iberê se encarrega de repetir isso em inúmeras entrevistas, mostrando o quanto a associação a memória e o passado era relevante."
"Com o tempo, some a mesa que apoiava os carretéis e a relação que eles estabelecem entre si se converte em pura 'estrutura dinâmica', como atesta o título de algumas obras de então: Estrutura dinâmica (1961) ou Estrutura em movimento I (1962)."
"'... não esperava tornar-me abstrato, não tinha essa intenção. Eu estava pintando aquele carretel que estava sobre a mesa, que era para mim carretel muito importante porque tinha sido o brinquedo da minha infância. Ele era muito carregado de reminiscências e vivências minhas... E assim, depois, esses carretéis se transformaram em núcleos, até esses núcleos explodirem.'"
"Termos como figurativo e abstrato tornam-se francamente inapropriados. Tampouco podemso decidir por um dos lados da tradicional oposição entre expressão e geometria... Podemos [em certo sentido] pensar em aproximações singulares com o neoconcretismo... Hélio Oiticica, Lygia Pape e Lygia Clark procuravam inserir acontecimentos poéticos no interior de estruturas geométricas."
"Iberê concilia a resposta às demandas de seu tempo com a defesa arraigada da tradição e com um caminho solitário e dissonante dentro da arte brasileira e internacional."
"Essa compreensão da história da arte como matéria da obra, com a qual precisa dialogar de maneira direta e singular, aproxima0se do sentido mais geral do seu empenho com relação aos materiais e técnicas artísticas: trata-se, a rigor, da identificação com a materialidade da arte, enquanto tradição e experiência do absoluto."
"... muito do espanto causado pela obra abstrata de Iberê, realizada entre os anos de 1950 e 1980, diz respeito a essa fatura peculiar e à textura alcançada pelas massas de tinta que ora se acumulam, ora são retiradas a ponto de deixar à vista o tecido da tela."
"Iberê voltava-se de costas para a tela e, com o auxílio de um espelho, começava de outro ângulo a interrogá-la novamente."
"Talvez fosse mais eficaz uma comparação com a arte europeia, especialmente com a abstração expressiva do grupo CoBrA ou de Jean Dubuffet, com suas poéticas da matéria, ainda que a estrutura e a densidade dos trabalhos de Iberê sejam radicalmente diferentes do aspecto desconstruído das obras dos artistas europeus."
"O fato de o pintor ter ficado várias de suas obras — formando a coleção que hoje pertence à Fundação Iberê Camargo — mostra, igualmente, como não cedeu às tentações do mercado. Parece sentir que, mais relevante em termos culturais, seria atuar como colecionador de si mesmo..."
"'Hoje me interessa a fantasmagoria dos homens e suas imagens interiores...'"
"'Toda pintura e abstrata, porque resulta da depuração da forma e da linha...'"
"Nenhum drama, tampouco, vem do ambiente que cerca suas figuras, cuja desolação tanto pode remeter à austeridade da paisagem sulista de sua infância quanto ao fim dos tempos, 'o primeiro dia depois do fim do mundo.' Como Van Gogh — um dos mestres que escolhe para si —, sabe que precisa tirar mais 'da pintura do que da própria realidade.'  O drama existe na luz fria, pesada e azulada..." 
***everything from: Vera Beatriz  Siqueira, Iberê Camargo: Origem e Destino (Cosac Naify, 2009); 

"A matéria também sonha. Procuro a alma das coisas" [Gaveta dos Guardados, Porto Alegre 1993-94].
"O escuro aumenta a solidão e torna o espaço infinito" [Hiroshima, 1993].
"Deve ser um homem primitivo, que ainda conserva intacta a sabedoria da  natureza, esse conhecimento  ainda não corrompido pela presunçosa ciência" [Hiroshima, 1993].
"... rumores  familiares que não se identificam, que ora lembram passos, ora pancadas, ora correntes que as almas do outro mundo arrastam para assustar..." [Hiroshima, 1993].
"... filho de  um velho  amigo... Assim eu o encontrei, já quase esquecido do dia em que me aterrorizou a infância, com sua arma de  caça apontada persistentemente para mim, acompanhando meus passos como se eu fosse um alvo móvel. Nunca trocamos palavras" [Há gente caminhando dentro de mim, 1994].
"Crianças não se dizem adeus. Tua imagem vai comigo junto com essas lembranças" [Ígea, 1992].
"Tenho então o coração tranquilo" [Ígea, 1992]. 
"Mário Quintana disse: 'A imaginação é a memória que enlouqueceu.' O poeta sempre intui a verdade" [Os carretéis, Rio de Janeiro 1974].
"Descobri, então, um defeito: duas pinceladas rompiam a tecedura da matéria. Eram como fios soltos de uma trama. Com golpes de espátula, procurei incorporá-las. Sucederam-se várias tentativas e os insucessos... Raspei a  tela: a tinta, então, caía no chão  e e u  a espalhava com meus passos de sonâmbulo.  Pisava  carne que fora vida" [Ângela Maria].
"A força expressiva de Goeldi está em permanecer autêntico, fiel a si mesmo, indiferente à crítica que largo tempo o relegou. Considero sua obra da máxima importância" [Oswaldo Goeldi, Porto Alegre 1961].
"O progresso é uma ação de despejo em execução" [O Riacho, 1993].
"Este cenário, que me  repercute dentro, multiplica-se ao infinito nas facetas de um prisma que imagino. Serão imagens coloridas, serão quadros: a mesma face repetida" [Correio].
"Solitário, devo conviver  comigo mesmo. Não há mais esquecimento, nem sono" [O tormento de Deus, 1992].
"Talvez a eternidade também seja o tormento de Deus" [O tormento de Deus, 1992].
"...  o doutor Valentim, negro retinto e pachola, permanentemente bêbado, a enticar na hora do trem com a  negra Egalantina, empregada de minha mãe, com este estribilho: 'No céu não luzem estrelas pretas'. Ainda, o buraco fundo com seus ninhos de caturritas..." [Um esboço autobiográfico].
"... Porto Alegre era uma cidade provinciana, conservadora... O Instituto de Belas Artes, fechado ao modernismo, intolerante, congregava a maioria dos pintores que exerciam o magistério..."  [Um esboço autobiográfico].
"Minha contestação é feita de renúncia, de não participação, de não conivência, de não alinhamento com o que não considero ético e justo" [Um esboço autobiográfico].
"A fatura de meus  quadros é densa, pastosa, por uma necessidade de expressão, por uma necessidade quase tátil e sensual no emprego da matéria" [Um esboço autobiográfico].
"Jamais pedi atestado de ideologia aos meus amigos" [Um esboço autobiográfico].
***everything from Iberê Camargo, Gaveta dos Guardados (org. Augusto Massi, Cosac Naify, 2009);

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