Tuesday, November 26, 2019

Allan Ginsberg, Burroughs & Ney Matogrosso sobre Ayahuasca



Ney de Souza Pereira/Ney Matogrosso
Pictures taken from Denise Pires Vaz'
Um Cara Meio Estranho (1992)
The Great Being & The Vomit
Pictures taken from Burroughs & Ginsberg's
The Yage Letters (1963)
Code Morel & One Hundred Forty Nine Inches (by A/Z, see here)
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#ActForTheAmazon
#ExtinctionRebellion
#GretaThunberg
#GreenNewDeal
#BoycottBrazilianFood

"Images fall slow and silent like snow... Serenity... All defenses fall... everything is free to enter or to go out... Fear is simply impossible..."
William S. Burrougs, Naked Lunch (Notes from yagé state)

***Ayahuasca [aja'waska] (Banisteriopsis caapi), synonyms in Portuguese: cipó de defunto, daime, santo-daime, iagê, mariri, uasca, yage. 
"'Magic Psalm', 'The Reply' and 'The End' record visions experienced after drinking Ayahuasca, an Amazon spiritual potion. The message is: Widen the area of consciousness ['Salmo Mágico', 'A Resposta' e 'O Fim' registram visões que vivi depois de beber Ayahuasca, uma poção espiritual amazônica. A mensagem é a seguinte: ampliar a área da consciência.]"— A. G. (Kaddish and Other Poems)

"Salmo Mágico:

Porque esse mundo está voando e o que vem por aí ninguém sabe
Oh fantasma que minha mente busca anos e anos, desce do céu a esse corpo bambo
Captura o meu olho ligeiro no Raio vasto que não conhece limites — Inseparável — Mestre —
Gigante fora do Tempo com todas tuas folhas cadentes — Gênio do Universo — Mágico do Nada em que aparecem nuvens vermelhas —
Rei Inominável das estradas que se foram — Cavalo Ininteligível saindo do cemitério — Sol poente derramado sobre Cordilheira e inseto — Mariposa Retorcida — 
Peçonha — Gargalhada sem boca, Coração que nunca teve carne pra morrer — Promessa nunca feita — Alívio, cujo sangue queima em milhões de animais golpeados —
Ah Misericórdia, Destruidora do Mundo, Ah Misericórdia, Criadora de Ilusões Úberes, Ah Misericórdia, pombinha cacofônica cuja boca a guerra amorna, Vem,
vara meu corpo com o sexo de Deus, engasga minhas narinas com as infinitas blandícias da corrupção
transfigura-me em vermes pegajosos de pura transcendência sensória de eu ainda estar vivo,
coaxa minha voz com o-pior-que-a-realidade, um tomate mediúnico falando tuas milhões de bocas, 
Miríades-de-línguas minha Alma, Monstro ou Anjo, Amante que vem pra me foder de vez — vestido longo em Lula Estrábica —
Rabo do Universo em que desapareço — Mão Elástica que falou a Crane — Música que passa pelo fonógrafo dos anos vinda de outro Milênio — Orelha dos edifícios de NY —
Aquilo em que acredito — tenho visto — procurado sem parar em mirada furtiva de cão — equívoco sempre, lacuna — que me faz pensar —
Desejo que me criou — Desejo que escondo no corpo, Desejo [que] todo Homem a Morte sabe, Desejo superando o mundo possível babilônico
que faz meu corpo sacudir orgasmo do Teu Nome que nunca sei nunca vou falar —
Fala aos Homens pra dizer que o grande sino dobra um som de ouro em sacadas de ferro em cada milhão de universo,
Sou o Teu profeta vindo a esse mundo pra vociferar um Nome odioso através dos meus 5 sentidos e o abominável sexto
que conhece a Tua Mão em seu falo invisível, coberto com os bulbos eletrônicos da morte —
Paz, Resolvedora em que revolvo ilusão, Vagina de Lábios Moles que me entra no cérebro vinda de cima, Arca-Pomba com broto de Morte.

"Enlouquece-me, Deus estou pronto à desintegração da minha mente, desgraça-me aos olhos da terra,
assalta de terror meu coração peludo come meu pinto coaxar Invisível de sapo-da-morte pula em mim cambada de cães salivando luz,
devora meu cérebro Fluxo Uno de consciência interminável, tenho medo da tua promessa devo fazer berrar minha reza de medo —
Baixa oh Criador de Luz & Comedor de Homens, atravanca o mundo em sua loucura de bombas e assassinato, 
Vulcões de carne sobre Londres, em Paris chuva de olhos — caminhões de corações de anjos enxovalham paredes do Kremlin — a taça-crâneo de luz a Nova Iorque —
miríade de pés incrustados de joias nos terraços de Pequim — véus de gás elétrico baixando na Índia — cidades de Bactéria invadindo o cérebro — a Alma escapando na borracha de bocas ondulantes do Paraíso —
Esse é o Grande Chamado, toque'ntoxicante da Guerra Eterna, esse é o grito da mente esquartejada na Nebulosa,
esse é o Sino de Ouro da Igreja que nunca existiu, o reboo no âmago do raio de sol, o brado do Verme na Morte,
Apelo do castrado sem-mão apanha Esmola semente de ouro da Futuridade no sismo & vulcão do mundo —
Crava meu pé sob os Andes, respinga meus cérebros na Esfinge, veste com minha barba e cabelo o Empire State Building,
cobre minha barriga com mãos de musgo, preenche minhas orelhas com teu relâmpago, cega-me com arcos-íris proféticos
Que por fim eu prove da merda do Ser, que eu toque os teus genitais na palmeira,
que o raio vasto da Futuridade entre na minha boca a soar Tua Criação pra Sempre Não-Nascida, oh Beleza invisível ao meu tempo!
que minha reza supere meu entendimento, que eu deponha minha vaidade a Teus pés, que eu não mais tema o Juízo sobre o Allen desse mundo
nascido em Newark vindo à Eternidade em Nova Iorque chorando de novo no Peru pra Língua humana salmodiar o Indizível,
que eu supere o desejo de transcendência e entre nas águas do universo
que vá até o fim dessa onda, não afogado para sempre na enchente da minha imaginação
que eu não seja estraçalhado em minha própria magia insana, esse crime punido nas prisões misericordiosas da Morte,
homens entendem minha fala pelo seu próprio coração turco, ajudem-me os profetas com a Proclamação,
o Serafim aclama Teu Nome, Tu mesma de vez em uma descabida Boca de Universo faz responder a carne."
-  Allen Ginsberg, junho de 1960 [***tradução A/Z]

"Banisteriopsis caapi... 

"...  (harmaline, banisterine, telepathine) é uma trepadeira que cresce rápido. O princípio ativo é aparentemente encontrado por toda a madeira da planta recém-colhida. A parte interior do caule é considerada a mais ativa, e as folhas nunca são usadas. É preciso uma quantidade considerável da planta para sentir o efeito mesmo da droga. Cerca de cinco pedaços da planta de vinte centímetros de comprimento cada são necessários para uma pessoa. A planta é esmagada e fervida por duas ou mais horas com as folhas de um arbusto identificado como Palicourea fam. rubiaceae.
"Yagé ou ayahuasca (os nomes indígenas mais comuns para a Banisteriopsis caapi) é um narcótico alucinógeno que produz um profundo desregramento dos sentidos. Em overdose é um veneno convulsivo. O antídoto é um barbitúrico ou outro sedativo anticonvulsivo forte. Qualquer pessoa que venha a tomar yagé pela primeira vez deveria ter à mão um sedativo para o caso de uma overdose. 
"As propriedades alucinógenas do yagé tornaram-no útil aos curandeiros [Medicine Men] desejosos de terem seus próprios poderes aumentados. Eles também o usam como um remédio eficaz no tratamento de várias doenças. Yagé faz baixar a temperatura corporal e por consequência tem alguma utilidade no tratamento da febre. É um poderoso anti-helmíntico, indicado para o tratamento de vermes do estômago ou intestino. Yagé provoca um estado de anestesia consciente, e é usado em rituais em que os iniciados devem passar por alguma provação dolorosa, como serem açoitados com vinhas nodosas ou expostos a picadas de formigas. 
"Até onde pude descobrir, só a planta recém colhida é eficaz. Não encontrei nenhuma forma de secar, extrair ou preservar o princípio ativo. Nenhum tipo de tintura funcionou. A planta seca é completamente inerte. A farmacologia do yagé precisa ser pesquisada em laboratório. Dada a potência narcótica alucinógena do extrato cru, é possível que resultados ainda mais espetaculares possam ser obtidos com variações sintéticas. Certamente o tema é digno de maior investigação. 
"Não observei nenhum efeito prejudicial que pudesse ser atribuído ao uso de yagé. Os curandeiros que o empregam continuamente ao realizar seus trabalhos parecem usufruir de uma saúde normal. A tolerância é logo adquirida, de forma que se pode beber o extrato sem sentir nausea ou outro efeito colateral.
"O yagé é um narcótico sem igual. A intoxicação por yagé é em alguns aspectos similar à intoxicação por haxixe. Em ambos os casos há uma mudança de perspectiva, uma extensão da consciência além da experiência ordinária. Mas o yagé produz um desregramento mais profundo dos sentidos com alucinações muito reais. Clarões azuis à frente dos olhos é um efeito peculiar da intoxicação por yagé
"As concepções que se tem sobre o yagé variam muito. Muitos indígenas e a maioria dos usuários brancos parecem ver nele um intoxicante comum como o álcool. Para outros grupos, ele tem um significado ritual e é assim empregado. Entre os jivaros, jovens  do sexo masculino tomam yagé para contatar espíritos ancestrais e obter um resumo da vida futura. É utilizado em iniciações para anestesiar os iniciados em provações doloridas. Todos os curandeiros o usam em suas práticas para prever o futuro, localizar objetos perdidos e roubados, dar nome ao perpetrador de algum crime, diagnosticar e tratar doenças. 
"O alcalóide da Banisteriopsis caapi foi isolado em 1923 por Fisher Cardenas. Ele chamou o alcalóide de telepatina, ou ainda de banisterina. Rumf mostrou que a telepatina era idêntica à harmina, o alcalóide da Peganum harmala.
"A Banisteriopsis caapi evidentemente não provoca dependência."
-  William S. Burrough, Letter from a master addict to dangerous drugs (Veneza, 1956) [***tradução A/Z]

Ney Matogrosso

"Sentia a bebida efetuando uma revisão física no seu corpo. Durante uma cerimônia, brotou a nítida impressão de uma restauração dentro da cabeça: uma luz forte estourava em partes diferentes do cérebro, tão intensa que ele abria os olhos, pensando ser do lado de fora. Não era. E a cada novo flash seguia-se um alívio no lugar iluminado da cabeça... 'Se quer tomar alguma coisa para se aprofudnar realmente, use o daime... Ele atua na essência do ser, abrindo caminho para as descobertas do espírito...'"
"Uma noite, depois de tomar o daime durante uma sessão, surgiu quase inteiro na sua cabeça o espetáculo que encenaria poucos meses depois. No primeiro momento, reagiu às imagens, dialogando consigo mesmo que aquilo era ego e que estava desperdiçando a oportunidade de caminhar mais profundamente. Não conseguia, no entanto, controlar o que aparecia na sua cabeça, e acabou concluindo que a criação também era divina. Aí relaxou e o show pintou praticamente completo. 'A segunda parte veio inteira, e eu vi a cor da roupa, seu feitio, e as imagens de um ser realizando no palco, com as luzes adequadas para cada situação. Da primeira parte vieram flashes esparsos, e o primeiro foi a figura de uma cabeça com uma enorme peruca. Há uns três anos eu havia ganho uma crina de cavalo...'"
"O mais louco de toda a história com o daime é que nada precisa ser falado: a tal da telepatina, uma substância encontrada na bebida, faz com que você se comunique com as pessoas sem trocar uma única palavra. Além disso, o daime é um acelerador, e me possibilitou vivenciar numa noite a dor que evitei durante 46 anos...  46 anos para compreender a necessidade e a importância do afeto! Quando percebi que o Paulo Roberto [responsável pela comunidade do Daime no Rio] estava conscientemente conduzindo um trabalho comigo nesse sentido, pensei assim: 'olha, pode pegar leve, sem toda essa dureza, porque eu estou entendendo tudo'. Na mesma hora, ele abriu os olhos e sorriu pra mim, e dali pra frente, voltou uma sensação muito boa...'"
"'Sempre senti uma forte ligação com a América Latina, que me fazia ter a atenção profundamente despertada pelas suas civilizações antigas. Não uma curiosidade meramente intelectual, mas um interesse que passava pelo coração. E esse foi o lado que mais me encantou no daime e que primeiro me segurou: ele é uma manifestação totalmente voltada e centrada naquela região. Quando ouvia aqueles hinos, aqueles acompanhamentos com flautas, eu era inteiramente transportado para o meio da Amazônia, dos Andes, reconhecendo ao mesmo tempo que ali estava o espírito brasileiro mais puro.'"
"Várias vezes, sob o efeito do daime, Ney escutava sons de animais ou objetos, como carneiros e pandeiros, que não se encontravam presentes fisicamente no ambiente. Esses momentos funcionavam como uma prática de relação com o mundo inaparente, um ideal que sempre permeou sua vida. Uma noite, durante o ritual, ouviu o som forte de um motor, que, aos poucos, se transformou no barulho do universo. Só que aí não era mais um ruído, e, sim, um som surdo que os ouvidos humanos, em condições normais, não captam. Em vez de assustá-lo, experiências desse tipo ratificavam em Ney a antiga certeza de que o homem apreende muito pouco do ambiente que o cerca, possuindo um conhecimento limitado do universo."
"O daime me ensinou a aceitação do próximo, mostrando que a gente precisa conviver em  paz com todas as pessoas, e não apenas com as que a gente elege."
Denise Pires Vaz & Ney Matogrosso, Um cara meio estranho (Brasil 1992)