Monday, January 11, 2021

Cartografia de Água Viva (Objeto Gritante)*** &/ou lista de velhas figuras alquímicas (under construction)










A/Z montage (original photography + Guan Tong, Li Long-mien, Baltrusaitis), for more see here;
Seminário Aberto Filosofia e Literatura/Clarice Lispector, 100 anos de existência, 10/12/2020 (Universidade do Porto); 
Entrevista de Clarice com Julio Lerner (1977); 
Lygia Clark and her "Abandonment" in MoMA (Luis Pérez-Orama);
Documentário su August Strindberg (1849-1912) (Fondazione Teatro Due); 
'Strindberg: A Life' Author Sue Prideaux Interviewed by Yale Books;
Nerval, La folie d'écrire (Stéphane Ginet, Jacques Bony/Canal du Savoir, 1996); 
Heidegger & Holderlin (par Jean Amrouche et Jean Wahl/RTF, 1956);
Friedrich Hölderlin : Folie et génie par Pierre Jean Jouve (1951 / France Culture);
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"Jung contrappone, è noto, a uno strato superficiale dell'inconscio (personale) uno strato piú profondo, innato e collettivo che ha contenuti e comportamenti che (cum grano salis) sono gli stessi dappertutto e per tutti gli individui. I contenuti dell'inconscio collettivo sono i cosiddetti archetipi. Tipi arcaici, immagini universali presenti sin dai tempi remoti, répresentations collectives (Lévi-Bruhl) ovvero figure simboliche delle primitive visione del mondo... I principi basilari dell'inconscio, le archai, nonostante siano riconoscibili, sono, per la loro ricchezza di riferimenti, indescrivibili. Nessuna formulazione univoca é possibile: essi sono contraddittori e paradossali, come lo spirito è, per gli alchimisti, simul senex et iuvenis..."
Umberto Eco, Semiótica e Filosofia del linguaggio
"And he stared hard at the object of discourse, as one might do at a strange repulsive animal: a centipede from the Indies..."
Nelly (Wuthering Heights)

"Qu'en Grèce une femme incarnant une compagne de Dionysos soit figurée comme possédée par une panthère ou qu'au Dahomey ce soit une divinité des eaux qui incarne passagèrement l'esprit du fauve, l'un et l'autre ne font que montrer, une fois de plus, d'une part que la thématique de la possession est universelle et que la fureur des bêtes sauvages est un de ses aspects favoris, de l'autre, et c'est ce qui nous intéresse surtout présentement que la possession s'accompagne partout d'un grand mouvement d'échange et de va-et-vient des âmes..."
Gilbert Rouget

Fundo: 
- "instantes-já" (da "quarta dimensão"), "átomos do tempo", "substrato último", "vibração última", "energia", "estilhaços de X" (9, 11, 80), (cf. "como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer?", A Hora da Estrela, Rocco, 1998: 9); 
- "o it", "transcendência dentro de mim" ("pensamento que uma ostra tem"), "o it vivo" ("é o Deus"), "elemento puro", "material do instante do tempo", "Eu é", "ribombo oco do tempo", "aquilo", "X" ("tenho medo do seu diapasão") (30, 34, 37, 79), (cf. "eu era uma menina muito curiosa e, para minha palidez, eu vi; eriçada, prestes a vomitar, embora até hoje não saiba ao certo o que vi; mas sei que vi; vi tão fundo quanto numa boca, de chofre eu via o abismo do mundo... como se um fígado ou um pé tentassem sorrir", Os Desastres de Sofia) ("é que olhei demais para dentro de...", A Quinta História), ("Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram", Amor), ("o explorador tentou sorrir-lhe de volta, sem saber exatamente a que abismo seu sorriso respondia", A Menor Mulher do Mundo), ("uma coisa branca espalhara-se dentro dela, branca como papel, fraca como papel, intensa como uma brancura", O Búfalo);
- "aura do corpo em plenilúnio" (74); 
- espelho, água (77-80); 

Meio: 
- "entrelinha", "signos", "gesto", "pintar", "mergulho na matéria da palavra", "onomatopéia", "convulsão da linguagem", "atrás do pensamento", "parar de raciocinar", "verdade latente", "incompreensão", "vida liberta do entendimento", "o fundo da existência", "ao escrever lido com o impossível", "se não compreendo o que escrevo a culpa não é minha, tenho que falar porque salva" (21, 24, 27, 33, 40, 53, 66, 72, 85), (cf. "esta história será feita de palavras que se agrupam em frases e destas se evola um sentido secreto que ultrapassa palavras e frases", A Hora da Estrela, Rocco, 1998: 15), ("tesouro que se disfarça, que está onde menos se espera", "numa solidão sem dor, não menor que a das árvores, eu recuperava inteira, a ignorância e a sua verdade incompreensível", Os Desastres de Sofia), ("o que eu não sei do ovo é o que realmente importa", "as pessoas que chamam o ovo de branco, essas pessoas morrem para a vida", O Ovo e a Galinha);
- "sânscrito", "língua anterior ao sânscrito" (43, 45); 
- "parambólica", "não existe a palavra espelho" ("um único espelho é uma infinidade de espelhos"), "cada um de nós é um símbolo que lida com símbolos" (74, 77, 80);
 
Noite: 
- "caverna de terror e das maravilhas" ("lugar de almas aflitas"), "gruta" ("com seu miasma"), "mal", "missa negra", "vida latejante infernal", "perigo de morte de alma", "noite" ("entorpecimento, azinhavre e visgo", "mais longa que a vida"), "marca de Satã" ("a mão verde e os seios de ouro"), "escuridão feérica" ("caldo de cultura"), "cercam-me criaturas elementares, anões, gnomos, duendes e gênios, sacrifico animais para colher-lhes o sangue de que preciso para minhas cerimônias de sortilégio", "a planta maldita que está próxima de se entregar ao Deus, quanto mais maldita mais até o Deus", "as inscrições cuneiformes quase ininteligíveis falam de como conceber e dão fórmulas sobre como se alimentar da força das trevas, falam das fêmeas nuas rastejantes", "intensidade do crepúsculo" (16, 20, 25, 26, 28, 38, 41, 42, 76), (cf. "a vida come a vida", A Hora da Estrela, Rocco, 1998: 85), ("no tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha; a crueza do mundo era tranquila", "com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago", Amor);
- "existo de um modo febril", "trabalho enquanto durmo", "convalescença macia" ("de algo que poderia ter sido absolutamente terrível"), "mina faiscante e sonambúlica", "bola de cristal", "campo de meditação", "sono criador" ("que se espreguiça através das veias") (22, 66, 69, 80), (cf. "a prece mais profunda é a que não pede mais", Os Desastres de Sofia), ("um cego mascando chicles mergulhava o mundo em escura sofreguidão", Amor); 
- "rainha dos medas e dos persas", "Diana caçadora" (24, 26);
- "dama da noite" ("perfume de lua cheia", "fantasmagórica", "da esquina deserta e em trevas e dos jardins de casas de luzes apagadas", "assobio no escuro", "o que ninguém aguenta") (44, 46, 59);

Vida Sobrenatural:
- "mítico, fantástico", "sobrenatural" ("sou assombrada pelos meus fantasmas"), "os bichos me fantasticam" ("são o tempo que não se conta"), "os seres vivos (que não o homem) são um escândalo de maravilhamento", "mistério doido" (perfume da rosa), "taja" (planta que fala da Amazônia, "uma vez entrou tarde da noite em casa e quando estava passando pelo corredor ouviu a palavra 'João'"), "estou transfigurando a realidade", "eu não disse que um dia ia me acontecer alguma coisa?", "e a parte divina das borboletas é mesmo de dar terror", "as flores são assombradamente delicadas como um suspiro de alguém no escuro" (29, 40, 48, 56, 60, 65, 67, 92), (cf. "existir é coisa de doido, caso de loucura, porque parece, existir não é lógico", A Hora da Estrela, Rocco, 1998: 20), ("... não só chegou a essa conclusão, como esta transformou sua vida em mais alargada e perplexa, em mais rica, e até supersticiosa; cada coisa parecia o sinal de outra coisa, tudo era simbólico, e mesmo um pouco espírita dentro do que o catolicismo permitiria", Os Obedientes) ("fora atingida pelo demônio da fé", Amor); 
- "tigre" ("lambo o meu focinho depois de ter devorado o veado"), "negra pantera lustrosa" ("andava macio, lento e perigoso"), "gata parindo" ("comi minha própria placenta"), "planta carnívora" ("que lamenta tempos imemoriais"), "pantera negra enjaulada" ("uma vez olhei bem nos olhos, ela me olhou bem nos olhos, transmutamo-nos"), "tigre" ("lambo uma das patas"), "tigre" ("com flecha imortal cravada na carne") (25, 28, 34, 41, 80);
- "morcegos" ("ratos com asas em forma de cruz"), "insetos, sapos, piolhos, moscas, pulgas e percevejos", "corrupta germinação malsã de larvas", "seres putrefatos em decomposição", "ouço o canto doido de um passarinho e esmago borboletas entre os dedos, sou uma fruta roída por um verme", "chusma dissonante de insetos", "salamandra", "anjo aleijado" (15, 41, 67, 70, 73); 
- "gosto é das paisagens de terra esturricada e seca, com árvores contorcidas e montanhas feitas de rocha e com uma luz alvar e suspensa", "oh, vento siroco" (39, 52); 
- formiga, abelha e rosas ("são elas") (57, 61, 73);

Morte Impossível: 
- "a morte apaga os traços de espuma do mar na praia", "sou minha própria morte" ("ninguém vai mais longe"), "quero morrer com vida", "há uma prece profunda em mim que vai nascer não sei quando", "éclater", "alguma coisa minha que no entanto fica inteiramente fora de mim", "eu mesmo estátua a ser vista de noite", " quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama", "a morte é o impossível e o intangível" (29, 39, 46, 67, 72, 84), (cf. "... não falei e nem falarei em morte e sim apenas um atropelamento", "que não significa sequer desastre", "encontro consigo", "tempo de morangos" A Hora da Estrela, Rocco, 1998: 80, 84, 86), ("morrer é ininterrupto", Os Desastres de Sofia), ("e tinha muito passarinho que voava do abismo para a estrada", Viagem a Petrópolis), ("antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia", Amor);

Ordenamento: 
- "a ausência de Deus é um ato de religião" (estou precisando de Deus "mais do que a força humana"), "Ordem", "Deus é no passado que se soube, é algo que já se sabe", "duas assimetrias encontrar-se-ão na simetria", "o material criado é religioso", "síntese", "simetria utópica", "um pedaço mínimo de espelho é sempre o espelho todo", "mecanicismo" ("objeto que grita") (55, 64-65, 73, 76-77, 86); 
- "o oblíquo da vida", "nós somos de soslaio", "eu falo bem baixo para que os ouvidos sejam obrigados a ficar atentos" (68, 70), (cf. "apareceu portanto um homem magro de paletó puído tocando violino na esquina", A Hora da Estrela, Rocco, 1998: 82), (cf. "ser matéria de Deus era a minha única bondade", Os Desastres de Sofia);

***Everything from Clarice Lispector, Água Viva (Rio de Janeiro: Rocco, 1973);

See also: 
- Clarice Lispector e a Tradição do Romance de Vanguarda: Contrapontos;