Saturday, May 09, 2015

O Primo Basílio de Eça de Queirós

"Je m'en assurais par la fausseté même de l'art prétendu réaliste et qui ne serait pas si mensonger si nous n'avions pris dans la vie l'habitude de donner à ce que nous sentons une expression qui en diffère tellement, et que nous prenons au bout de peu de temps pour la réalité même.  Je sentais que je n'aurais pas à m'embarrasser des diverses théories littéraires qui m'avaient un moment troublé—notamment celles que la critique avait développées au moment de l'affaire Dreyfus et avait reprises pendant la guerre et qui tendaient à faire sortir l'artiste de sa tour d'ivoire."
Marcel Proust (le narrateur)

"Et Nietzsche qui dénonce ailleurs la mystique du néant, parle ici des misérables réduits où vont se perdre avec violence les plus intelligents de nos contemporains, dans des professions de foi de chapelles esthétiques, tel le naturalisme parisien... ou dans le nihilisme selon le modèle de Saint-Pétersbourg, c'est-à-dire dans la croyance à la vertu de l'incroyance jusqu'au martyre pour cette dernière..."
Pierre Klossowski (Un si funeste désir) 
************************************************************

"Um dos bons e vivazes talentos da atual geração portuguesa, o sr. Eça de Queirós, acaba de publicar o seu segundo romance, O Primo Basílio. O primeiro, O Crime do Padre Amaro, não foi decerto a sua estréia literária. De ambos os lados do Atlântico, apreciávamos há muito o estilo vigoroso e brilhante do colaborador do sr. Ramalho Ortigão, naquelas agudas Farpas, em que aliás os dois notáveis escritores formaram um só. Foi [com] a estréia no romance, e tão ruidosa estréia, que a crítica e o público, de mãos dadas, puseram desde logo o nome do autor na primeira galeria dos contemporâneos. Estava obrigado a prosseguir na carreira encetada; digamos melhor, a colher a palma do triunfo. Que é, e completo, e incontestável.
Mas esse triunfo é somente devido ao trabalho real do autor? O Crime do Padre Amaro revelou desde logo as tendências literárias do sr. Eça de Queirós e a escola a que abertamente [154] se filiava. O sr. Eça de Queirós é um fiel e aspérrimo discípulo do realismo propagado pelo autor do Assommoir. Se fora simples copista, o dever da crítica era deixá-lo, sem defesa, nas mãos do entusiasmo cego, que acabaria por matá-lo; mas é homem de talento, transpôs ainda há pouco as portas da oficina literária; e eu, que lhe não nego a minha admiração, tomo a peito dizer-lhe francamente o que penso, já da obra em si, já das doutrinas e práticas, cujo iniciador é, na pátria, de Alexandre Herculano e no idioma de Gonçalves Dias.
Que o sr. Eça de Queirós é discípulo do autor do Assommoir, ninguém há que o não conheça. O próprio Crime do Padre Amaro é imitação do romance de Zola, La faute de l'abbée Mouret. Situação análoga, iguais tendências; diferença do meio; diferença do desenlace, idêntico estilo; algumas reminiscências, como no capítulo da missa, e outras; enfim, o mesmo título. Quem os leu a ambos não contestou decerto a originalidade do sr. Eça de Queirós, porque ele a tinha, e tem, e a manifesta de modo afirmativo; creio até que essa mesma originalidade deu motivo ao maior defeito na concepção do Crime do Padre Amaro [...] [155]. [O] padre Amaro vive numa cidade de província, no meio de mulheres, ao lado de outros que do sacerdócio só têm a batina e as propinas; vê-os concupiscentes e maritalmente estabelecidos, sem perderem um só átomo de influência e consideração. Sendo assim, não se compreende o terror do padre Amaro, no dia em que do seu erro lhe nasce um filho, e muito menos se compreende que o mate. Das duas forças que lutam na alma do padre Amaro, uma é real e efetiva — o sentimento da paternidade; a outra é quimérica e impossível — o terror da opinião, que ele tem visto tolerante e cúmplice no desvio dos seus confrades; e não obstante, é esta a força que triunfa.
Ora bem, compreende-se a ruidosa aceitação do Crime do Padre Amaro. Era realismo implacável, consequente, lógico, levado à puerilidade e à obscuridade [...]. Não se conhecia no nosso idioma aquela reprodução fotográfica e servil das coisas mínimas e ignóbeis. Pela primeira vez, aparecia um livro em que o escuso e o [...] [156] torpe eram tratados com um carinho minucioso e relacionados com uma exação de inventário. [...] Pois que havia de fazer a maioria, senão admirar a fidelidade de um um autor que não esquece nada, e não oculta nada? Porque a nova poética é isto, e só chegará à perfeição no dia em que nos disser o número exato dos fios de que se compõe um lenço de cambraia ou um esfregão de cozinha [...]. 
Certo da vitória, o sr. Eça de Queirós reincidiu no gênero, e trouxe-nos O Primo Basílio, cujo êxito é evidentemente maior que o do primeiro romance, sem que, aliás, a ação seja mais intensa, mais interessante ou vivaz, nem mais perfeito o estilo. A que atribuir a maior aceitação deste livro? Ao próprio fato da reincidência, e, outrossim, ao requinte de certos [157] lances que não destoaram do paladar público. Talvez o autor se enganou em um ponto. Uma das passagens que maior impressão fizeram no Crime do Padre Amaro, foi a palavra de calculado cinismo, dita pelo herói. O herói de O Primo Basílio remata o livro com um dito análogo; e, se no primeiro romance é ele característico e novo, no segundo é já rebuscado, tem um ar de cliché; enfastia. Excluído esse lugar, a reprodução dos lances e do estilo é feita com o artifício necessário, para lhes dar novo aspecto e igual impressão. 
Vejamos o que é O Primo Basílio e comecemos por uma palavra que há nele. Um dos personagens, Sebastião, conta a outro o caso de Basílio, que, tendo namorado Luísa em solteira, estivera para casar com ela; mas falindo o pai, veio para o Brasil, donde escreveu desfazendo o casamento. — Mas é a Eugênia Grandet! exclama o outro. O sr. Eça de Queirós incumbiu-se de nos dar o fio da sua concepção. [...] [D]evo dizer, desde já, que de nenhum modo plagiou os personagens de Balzac. A Eugênia deste, a provinciana singela e boa, [158] cujo corpo, aliás robusto, encerra uma alma apaixonada e sublime, nada tem com a Luísa do sr. Eça de Querós. Na Eugênia há uma personalidade acentuada, uma figura moral, que por iso mesmo nos interessa e prende; a Luísa — força é dizê-lo — a Luísa é um caráter negativo, e no meio da ação ideada pelo autor, é antes um títere do que uma pessoa moral.
Repito, é um títere; não quero dizer que não tenha nervos e músculos; não tem mesmo outra coisa; não lhe peçam paixões nem remorsos; menos ainda consciência.
Casada com Jorge, faz este uma viagem ao Alentejo, ficando ela sozinha em Lisboa; aparece-lhe o primo Basílio [...]. Ela já não o ama; quando leu a notícia da chegada dele, doze dias antes, ficou muito 'admirada'; depois foi cuidar dos coletes do marido. Agora, que o vê, começa por ficar nervosa [...]; diz-lhe que estimara ter vindo justamente na ocasião de estar o marido ausente [...]. A tarde e [159] a noite gasta-as a pensar ora no primo, ora no marido. Tal é o intróito de uma queda, que nenhuma razão moral explica, nenhuma paixão, sublime ou subalterna, nenhum amor, nenhum despeito, nenhuma perversão sequer. Luísa resvala no lodo, sem vontade, sem repulsa, sem consciência; Basílio não faz mais do que empuxá-la, como matéria inerte, que é. Uma vez rolada ao erro, como nenhuma flama espiritual a alenta, não acha ali a saciedade das grandes paixões criminosas: rebolca-se simplesmente [...]. 
[A]qui chegamos ao defeito capital da concepção do sr. Eça de Queirós. A situação tende a acabar, porque o marido está prestes a voltar do Alentejo, e Basílio começa a enfastiar-se, e, já por isso, já porque o instiga um companheiro seu, não tardará a trasladar-se a Paris. Interveio, neste ponto, uma criada, Juliana, o caráter mais completo e verdadeiro do livro; Juliana está enfadada de servir; espreita um meio de enriquecer depressa; logra apoderar-se de quatro cartas; é o triunfo, é a opulência. Um dia em que a ama lhe ralha com aspereza, Juliana denuncia as armas que possui [160]. Luisa resolve fugir com o primo; prepara um saco de viagem, mete dentro alguns objetos. entre eles um retrato do marido. Ignoro inteiramente a razão fisiológica ou psicológica desta precaução de ternura conjugal: deve haver alguma; em todo caso, não é aparente. Não se efetua a fuga, porque o primo rejeita essa complicação; limita-se a oferecer o dinheiro para reaver as cartas, — dinheiro que a prima recusa — despede-se e retira-se de Lisboa. Daí o cordel que move a alma inerte de Luísa passa das mãos de Basílio para as da criada. Juliana, com a ameaça nas mãos, obtém de Luísa tudo, que lhe dê roupa, que lhe troque a alcova, que lha forre de palhinha, que a dispense de trabalhar. Faz mais: obriga-a a varrer, a engomar, a desempenhar outros misteres imundos. Um dia Luísa não se contém; confia tudo a um amigo de casa, que ameaça a criada com a polícia e a prisão, e obtém assim as fatais letras. Juliana sucumbe a um aneurisma; Luísa, que já padecia com a longa ameaça e perpétua humilhação, expira alguns dias depois. 
Um leitor perspicaz terá já visto a incongruência da concepção do sr. Eça de Queirós, e a inanidade do caráter da heroína [...] [161].
Como é que um espírito tão esclarecido, como o do autor, não viu que semelhante concepção era a coisa menos congruente e interessante do mundo? Que temos nós com essa luta intestina entre a ama e a criada, e em que nos pode interessar a doença de uma e a morte de ambas? [162] [...] sabemos que a catástrofe é o resultado de uma circunstância fortuita, e nada mais [...].
Se o autor, visto que o realismo também inculca vocação social e apostólica, intentou dar no seu romance algum ensinamento ou demonstrar com ele alguma tese, força é confessar que o não conseguiu, a menos de supor que a tese ou ensinamento seja isto: — A boa escolha dos fâmulos é uma condição de paz no adultério [...] [163]." 
"Há quinze dias, escrevi nestas colunas uma apreciação crítica do segundo romance do sr. Eça de Queirós [...] [167]. Parece que a certa porção de leitores desagradou a severidade da crítica. Não admira; nem a severidade está muito nos hábitos da terra, nem a doutrina realista é tão nova que não conte já, entre nós, mais de um férvido religionário [...].
E antes de ir adiante, convém retificar um ponto. Um dos meus contendores acusa-me de nada achar bom em O Primo Basílio. Não advertiu que, além de proclamar o talento do autor (seria pueril negar-lho) e de lhe reconhecer o dom da observação, notei o esmero de algumas páginas e a perfeição de um dos seus caracteres. [...] mas o seu livro traz defeitos que me parecem graves, uns de concepção, outros da escola em que o autor é aluno, e onde aspira a tornar-se mestre; digamos-lhe isto mesmo, [168] com a clareza e franqueza a que têm jus os espíritos de certa esfera. — E foi o que fiz, preferindo às generalidades do diletantismo literário a análise sincera e a reflexão paciente e longa [...] [169].
Releiam-me; lá verão que, depois de analisar o caráter de Luísa, de mostrar que ela cai sem repulsa nem vontade, que nenhum amor nem ódio a abala, que o adultério é ali uma simples aventura passageira, chego à conclusão de que, com tais caracteres como Luísa e Basílio, uma vez separados os dois, e regressando o marido, não há meio de continuar o romance, porque os heróis e a ação não dão mais nada de si [...]. Que acontecimento, logicamente deduzido da situação moral dos personagens, podia vir continuar uma ação extinta? [170].
[...] Ora, a subtituição do principal pelo acessório, a ação transplantada dos caracteres e dos sentimentos para o incidente, para o fortuito, eis o que me parece incongruente e contrário às leis da arte [171].
[...] Não peço, decerto, os estafados retratos do romantismo decadente; pelo contrário, alguma coisa há no realismo que pode ser colhido em proveito da imaginação e da arte. Mas sair de um excesso para cair em outro, não é regenerar nada: é trocar o agente da corrupção [176].
[...] Voltemos os olhos para a realidade, mas excluamos o realismo; assim não sacrificaremos a verdade estética." 
- Machado de Assis, published in Obras Completas de Machado de Assis, 29. Crítica Literária (Rio de Janeiro: W. M. Jackson, 1953, p. 154-79; ***Originally published in O Cruzeiro, April 16 and 30, 1878);

***Machado de Assis's insightful criticism of Luísa is true in what matters many others of Eça de Queirós' characters. They have the consistency of puppets (títeres). This is the case, for instance, of Artur Corvelo—who is himself a literary figure and the main character of Eça de Queirós' last (and unfinished) novel: A Capital!
***How much Brazil still lacks in literary rigor (severidade was Machado de Assis' word), one can figure out by reading the afterword (by Elza Miné) of a recent edition of A Capital! (São Paulo: Editora Globo, 2006—a very good edition, based on Luís Fagundes Duarte reconstruction of the text). In this afterword, although Miné considers the importance of Eça to Brazilian writers, Machado de Assis' criticism is not even mentioned. 
***Concerning the notion of "pessoa (but not ação) extinta", see perhaps: Do mais lúcido Irmão que não me conhecia... 

*** See also:
Augusto Meyer and Machado de Assis;

No comments:

Post a Comment

Leave your comments below: