A vitória de Bellocchio, no cinema
Alessandro Zir (1)
Dos grandes e velhos diretores italianos — Antonioni, Fellini, Pasolini, Visconti — Marco Bellocchio é o mais intenso, e o mestre da ambiguidade. Desde I pugni in tasca (1965), expõe as contradições de toda a suposta boa intenção política, quando passa do discurso à ação. Um exemplo mais recente, ainda na memória do público, é Buongiorno notte (2003).
Mas Vincere é mais ousado em termos da poética visual e sonora: enormes contrastes de luz e sombra, sussurros e explosões, utilizados para criar uma atmosfera de intimidade, difícil de encontrar em outros diretores. Sem que o narrador precise de uma voz, na cabeceira da cama, nos conta, antes de dormir, uma história de terror proibida para criancas.
Mussolini aparece, fascinante e sedutor, além do maniqueísmo. E isso não apenas às mulheres, aos pequenos burgueses e às massas, mas também a artistas e intelectuais (o exemplo mais célebre nesse sentido, além do movimento de vanguarda futurista, é o caso de Ezra Pound).
Em Porto Alegre, numa sala de cinema lotada, foi possível sentir fisicamente o constrangimento do público, quando, no final da sessão, o título “Vincere” era exibido novamente na tela. Ninguém mais é fascista hoje em dia, mas sempre se quer “ganhar” alguma coisa, a qualquer custo, nem que seja o valor pago pelo ingresso, restituído em alguma forma de mensagem minimamente edificante. De fato, muitos esperavam que o “vincere” fosse a terça maior do “passione” que vêe na TV. Perturbados com o trítono, deixaram a sala assim que puderam!
(1) Escritor com publicações no Brasil, Canada, Chile, Portugal, incluindo capítulos de livros, artigos, traduções e ficção. Membro do GIFHC (Grupo Interdisciplinar em Filosofia e História das Ciências), do ILEA (Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados da UFRGS). Tem apresentado trabalhos em simpósios internacionais em instituições como o Max-Planck-Institut für Wissenschaftsgeschichte (Berlim, Alemanha), a Biblioteca Municipal de Evora (Portugal), e a Universidade Católica Portuguesa (Braga, Portugal). Foi bolsista da Capes de doutorado pleno no exterior, tendo obtido o título de doutor pelo Interdisciplinary PhD Program da Dalhousie University (Halifax, Canada), em julho de 2009.

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